Legos em Construção

Cinco pessoas cuja única coisa em comum é quererem encontrar um caminho.

Tuesday, May 23, 2006

Amar não dói

A dor não é necessariamente sinónimo nem sintoma de dar muito. Pode até significar o contrário, por estranho que possa parecer aos nossos olhos, aos olhos de alguém que partilha a mesma Fé, a mesma Igreja, o mesmo Projecto.
Diz a experiência que, por vezes, o que faz doer é não recebermos tanto quanto gostaríamos comparativamente àquilo que damos, e que consideramos muito. Ou seja, dar até doer pode também significar entregar tanto e receber tão pouco que dói não ver retorno dessa entrega.
Cresce em mim a noção de que nem é no dar que pomos o amor, é no Ser. O dar implica já uma imposição, um estender o braço que é entendido por um Outro, que tem o pleno uso da liberdade para receber ou rejeitar o gesto.
O Ser já é uma atitude de vida que nos (des)envolve a nós, aos outros e à relação que nos liga. Implica o meu compromisso de indiferença perante o resultado do meu testemunho e o compromisso do Outro em querer, ou não, receber esse testemunho em total liberdade. O problema do "dar", entendo eu, é ter de existir uma reacção positiva ou negativa por parte do receptor da nossa dádiva. O dar resulta muitas vezes no "ter de aceitar" o resultado. E nós, cristãos, não temos de aceitar o resultado do Amor, somos por Ele. Sem dar nada mas sendo, como melhor nos sentimos realizados e livres. Se estivermos fixados na ideia do dar, nunca damos o suficiente, o sentimento maior é sempre de insatisfação, de ficar aquém das necessidades, de desilusão.
Se amas alguém, sê Amor, não dês Amor. Vais descobrir que essa coisa do "dar" tem pés de barro e te deixas cair ao terceiro obstáculo, te cansas ao segundo "não", te desiludes de tentar.

2 Comments:

At 5:56 PM, Blogger Katharina said...

Interessante esta tua reflexão... Não há dúvida quanto ao Ser amor, só não tinha ainda questionado a parte do dar.
Sempre vi as coisas de uma forma muito simples: se és amor então dás genuinamente amor. No entanto, esta atitude de dar, por mais genuína que seja, tende sempre a esperar, no mínimo, ver aceite o que deu! Mesmo que não espere algo em troca, espera sempre que recebam o que dá.
O que propões é que ser amor, na verdade, afasta-nos do dar e do receber, colocando-nos numa posição neutra onde nos é possível respeitar as escolhas dos outros sem desilusão ou tristeza por ver recusada a nossa oferta...
Sim, tem a sua lógica, e concordo que "se estivermos fixados na ideia do dar nunca damos o suficiente".
No entanto, questiono apenas uma coisa: como seres sociais que somos será que podemos alcançar essa utopia e desligar-nos totalmente da resposta dos outros a nós? Não falo do que damos aos outros de forma directa, mas quando interagimos com eles damo-nos a eles e nesse "dar" pode existir rejeição... Nessa altura, mesmo sendo (verdadeiramente) amor, não nos sentiremos insatisfeitos e desiludidos?
Na minha opinião, parece-me difícil acreditar que alguma vez possamos ser totalmente indiferentes à respostas dos outros a nós. Mas, concordo que quanto mais FORMOS AMOR menos nos sentiremos fragilizados por esses momentos rejeição, porque estaremos mais perto da fonte do amor absoluto que é Deus!

Obrigada pela partilha e pela reflexão... :)

 
At 2:30 AM, Blogger Mipo said...

o amor implica sempre saber dar-se e saber receber, gratuitamente, sem cobrar, nem esperar. É um equilíbrio muito difícil de conseguir, que cada vez mais acho impossível atingir sozinho.

Talvez o equilíbrio passe mesmo pelo ser... com um qb de indiferença que nos poupe à prisão de dependência excessiva daquela(s) pessoa(s) ou daquele(s) projecto(s).

Quanto à dor na dádiva, acho que é sintoma de orgulho - ou porque estamos a dar alguma coisa que no fundo não queremos largar, ou porque não recebemos a recompensa que (às vezes inconscientemente) esperávamos, ou porque não estamos a saber receber. E é impossível dar sem ter. É extremamente difícil dar amor sem se saber amado.

Gostei muito do teu texto, Ismael!

 

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